Amantikir - A Serra que Chora

Fátima CChaves


Há muito, muito tempo, quando o Brasil ainda não tinha esse nome, na região que hoje marca a divisa entre Minas Gerais e São Paulo, estendia-se uma vasta planície coberta por densa floresta tropical. Ali pulsava um bioma exuberante, onde tudo coexistia em equilíbrio: a flora generosa, a fauna abundante e os povos indígenas que habitavam a terra em comunhão com ela.

Os recursos naturais brotavam com fartura. À margem de um lago formado por um rio de águas translúcidas, uma comunidade tupi havia se estabelecido. As águas ofereciam peixes em profusão, fonte essencial de sustento e vida. Os homens dedicavam-se à pesca e à caça, sempre com o propósito de alimentar o povo, nunca de explorar além do necessário. Às mulheres cabiam outras tarefas igualmente vitais: o cultivo da mandioca, o preparo dos alimentos, o cuidado com o cotidiano da aldeia.

Assim, com o trabalho compartilhado, o respeito profundo pela natureza e a consciência de pertencimento à terra, a comunidade vivia em harmonia. Nada lhes faltava. A abundância não vinha do excesso, mas do equilíbrio e a floresta, generosa, retribuía o cuidado com vida em plenitude.

Quando a primeira filha do cacique nasceu, ele a recebeu como uma dádiva de Tupã. A criança veio ao mundo forte e saudável, mas havia nela algo que ia além da vitalidade comum: uma beleza quase luminosa, que parecia anunciar um destino singular.

Ao despontar dos primeiros raios do amanhecer, o cacique fez questão de levá-la para fora da oca. Ergueu-a com cuidado e solenidade, oferecendo-a ao sol nascente, como quem apresenta a vida recém-chegada ao grande astro. A luz dourada tocou-lhe o pequeno corpo e naquele instante selou-se o primeiro encontro e também o início de um vínculo que atravessaria o tempo.

Tão logo a menina começou a firmar os próprios passos, passou a procurar, todas as manhãs, o encontro com os primeiros raios do sol. Era como um rito silencioso: deixava a oca ainda sonolenta e se colocava à luz nascente, recebendo-a como quem se deixa abençoar.

No início, o costume causou estranhamento. Mas o tempo, senhor de todas as coisas, fez com que o gesto se tornasse parte da rotina do povo. Aquela era simplesmente a sua maneira de existir.

As estações seguiram seu curso. As chuvas vieram e partiram, os ventos mudaram, o rio subiu e baixou. E, com os anos, a menina transformou-se em uma jovem de rara beleza.

Nos dias de sol, havia nela um brilho especial, como se a luz a reconhecesse. Nos dias de chuva, porém, seu semblante se tornava recolhido, quase melancólico, tal qual uma flor que se fecha ao sentir a ausência do Sol. Aceitava o ciclo, pois assim era a vida: feita de mudanças, de partidas e retornos, de luz e sombra, sempre em eterno movimento.

Todos na aldeia se encantavam com as noites: com o bordado das estrelas, com a Lua e suas fases. Todos, menos ela. Observava o céu noturno sem grande assombro, como quem espera outra coisa. Seu coração ansiava pela chegada do dia, pela expansão da luz, pela presença viva do Sol.

Até em sonhos era ele quem surgia. Via-o personificado como um lindo jovem de pele dourada, corpo feito de claridade, que se aproximava trazendo adornos simples, flores recém-colhidas, penas coloridas, presentes singelos, porém carregados de sentido. Ao despertar, a lembrança desses encontros permanecia quente, como se o sonho ainda respirasse dentro dela.

Em retribuição silenciosa, a jovem passou a cumprir um novo ritual. Ao romper da manhã, dirigia-se ao lago e ali, completamente nua, banhava-se. Depois, deitava-se sobre uma grande pedra lisa à margem, imóvel, permitindo que a luz nascente tocasse sua pele e que cada gota de água evaporasse lentamente.

Nesse gesto havia alegria, uma plenitude difícil de nomear. Somente após esse encontro íntimo com o Sol que ela se levantava e seguia para as tarefas do dia.

A presença dela não passou despercebida. O astro começou a esperar por aqueles instantes como quem aguarda um reencontro inevitável. Havia, em cada amanhecer, uma antecipação silenciosa. Não era apenas prazer — era um reconhecimento profundo, uma inclinação do espírito. Paixão, talvez. Amor, por que não nomear assim?

Como uma planta que, sem pressa, lança raízes na terra fértil e, dia após dia, ergue seus primeiros galhos rumo ao céu, esses sentimentos cresceram. Lentamente. Irreversivelmente.

Havia entre ambos uma cumplicidade silenciosa, tecida no calor da manhã, selada na luz que tocava e na pele que recebia. O mundo despertava ao redor, mas ali, naquele breve intervalo entre noite e dia, existia apenas o encontro.

Embriagado por uma paixão sem medida, o Sol tomou uma decisão extrema: resolveu permanecer ali, imóvel em seu zelo ardente, recusando-se a partir. Não se afastou mais, nem por um instante, e assim impediu que o manto da noite se estendesse sobre a terra. O céu estrelado desapareceu, a Lua perdeu seu domínio e as horas deixaram de obedecer ao ritmo antigo.

Ainda assim, às vezes, a Lua surgia pálida em pleno dia, como uma presença deslocada, observando em silêncio. E foi então que compreendeu, com clareza dolorosa, o que se passava.

Os indígenas, tomados pelo medo, viam o mundo perder o compasso. As plantas murchavam ou cresciam sem controle, os animais se agitavam, os rios aqueciam. A natureza, privada do descanso noturno, entrava em desordem. O equilíbrio ancestral se rompia.

A jovem, porém, nada via disso. Alheia ao caos, sorria. Estava plena, embalada pela presença constante do amado. Seu coração não conhecia mais a unidade com o mundo, apenas a alegria intensa de ser envolvida pela luz que nunca se afastava. Para ela, tudo fazia sentido. Para todos os outros, tudo se desfazia. A desarmonia se instalou como uma ferida aberta na Terra.

Foi então que a Lua, ferida por perder seu antigo lugar, decidiu procurar Tupã. Subiu em lamento e em denúncia. Contou-lhe tudo e pediu uma solução definitiva. Se o Sol podia se apaixonar, que fosse por ela, sua parceira no firmamento e não por uma simples humana, cuja existência, por mais bela que fosse, não poderia sustentar o peso de um amor que incendiava o mundo.

Tupã ouviu a Lua com atenção. Reconheceu no pedido o ciúme, sentimento pequeno, distante do sagrado, mas percebeu também que havia ali algo maior, mais grave e inadiável. O mundo clamava por equilíbrio. A Terra, exausta de luz contínua, já não suportava o excesso; a flora, a fauna e a própria humanidade caminhavam para a extinção silenciosa.

Era preciso agir pelo bem maior.

Então Tupã ergueu a terra com sua vontade ancestral. Do chão nasceram montanhas, uma extensa cadeia, levantada como um limite entre o céu e o desejo. No sopé de um de seus picos mais altos — quase três mil metros tocando o ar rarefeito —, ele encerrou a bela indígena. Ali a prendeu, não por crueldade, mas por necessidade, escondendo-a da vista do Sol, protegendo o mundo de um amor que se tornara devastador.

Naquele mesmo dia, o Sol voltou a seguir seu caminho, não antes de tingir o poente com uma tonalidade tão forte, que mais parecia um borrão de sangue. A noite retornou com suas estrelas, a Lua retomou seu curso, e o tempo reencontrou o passo esquecido. Aos poucos, a ordem se restabeleceu. As plantas voltaram a respirar, os animais a repousar, e os homens a sonhar com o futuro. Todos estavam alegres, menos o cacique que procurava pela filha.

Tupã, comovido pela dor do pai, revelou ao pajé que a jovem não estava morta, estava guardada, escondida pela própria terra. Sob a montanha, um amor impossível estava aprisionado e pulsava na escuridão.

Daquela serra recém-erigida começaram a brotar águas claras e incessantes: nasciam minas, abriam-se grotas, desciam cachoeiras, formavam-se rios. Diziam que eram lágrimas — lágrimas da bela jovem aprisionada, vertidas sem cessar no ventre da Terra.

A água corria mansa e fria, como lamento contido, alimentando vales, matas e caminhos distantes. E assim, desde então, aquelas montanhas passaram a ser chamadas de Mantiqueira, Amantikir, a Serra que Chora.

Dizem que é lenda. Eu, porém, sei e conto como me foi contado:

foi assim.

- Fatima CChaves, autora do livro “Vermelho-Céu do Destino”

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