
NADA CONTRA
Nada tenho contra o escaravelho
nem contra o cuco nem contra o grilo. Muito
menos tenho algo contra o ganso. Ou contra
o gato preto ou o malhado, ou a mosca, ou o morcego.
Não me queixei, e não me queixo nunca
do caracol, do cão, do caranguejo,
da elegante borboleta, da andorinha, da alforreca,
ou da pequena víbora,
da vaca, da ostra, da medusa.
Nem nada me move contra o melro,
o lobo, o lince e o falcão.
Ao lagarto, ao corvo e à pega, não quero mal.
Nem ao pardal nem ao hipopótamo.
Muito menos à pequenina libélula.
Acho mesmo simpática, a galinha.
E muito simpática, a gaivota.

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Confesso até, com satisfação, que adoro a águia
e que tenho preferência pela abelha.
A cegonha, o cavalo, o cisne e a cigarra são-me
tão agradáveis como o coelho, o pato, a cotovia.
Não me intimidam o tigre nem a cobra,
não me assustam a cheeta, a onça, o leopardo,
e não me apavora o crocodilo. Mas
Deus me livre desse animal
que existe em ti.
- Joaquim Pessoa, em “O Poeta Enamorado” (Edições Esgotadas) 2015