Foto: Noemia Prada

Ainda ontem tinha vinte anos e era o dono do tempo.

A minha mãe ainda me julgava o seu menino. E eu era já

um homem seguro de mim, carregado de certezas,

como acontece sempre que se tem vinte anos. Naquela altura

tudo era exato, tudo podia ser medido e comparado,

nada tinha força para se confrontar

com a sabedoria de um jovem.

O menino que era eu, foi ensinado pelo tempo, esse velho

alfarrabista que guarda o segredo da eterna juventude.

Tudo se foi modificando, o nascimento de algumas coisas

significou a morte de outras,

dentro de mim e fora de mim o futuro

foi-se construindo com o passado,

e entre alegrias breves aninharam-se

inseguranças e fundas frustrações.

Trinta anos depois

restam poucas certezas, aprendi

que não é o galo que canta para que nasça o dia

mas é o dia que acorda o galo para que cante.

Aprendi que a vida tem milhões de perguntas e que

tinha de procurar nos outros respostas para mim,

para achar em mim respostas para os outros. Soube dar

um braço a torcer para que não houvesse força

que pudesse torcer-me o outro braço. E vi

que a vida tem todas as portas abertas.

Fechei algumas, atravessei por outras,

esperando encontrar um mundo diferente.

Mas as diferenças que achei

estavam em mim.

Quis alterar o mundo com um livro e escrevi-o.

Depois, alterei-o de acordo com o mundo.

A minha vida teve muitas vidas que procurei entrelaçar

como o cesteiro faz o cesto. Aprendi que a realidade sobre

o que ouvi falar, é que nunca soube se estava

a ouvir falar da realidade. E que um momento doce de ilusão

pode doer mais que a realidade mais amarga. E agora

sei que não é pior caminhar contra o vento se

o vento não estiver a meu favor. E que a grande árvore

da amizade não pode viver sem os seus ramos mas,

para que cresça mais e dê melhores frutos,

é preciso ir podando alguns deles.

Hoje existem vozes diferentes na minha voz

e eu utilizo-as para fortalecer as minhas opiniões

sem falar nunca em nome dos outros. E não me sinto

obrigado a dizer a alguém seja o que for.

Importante é dizer alguma coisa a quem quer que seja.

E aprendi que falar não é o contrário de estar calado.

E que a lâmpada não tem culpa de ter falhado a energia.

E que não é preciso estar acordado vinte e quatro horas por

dia para não perder nada daquilo que me é devido. Sei agora

que a sedução é um jogo para o qual todos os dias treino

e que todos os dias jogo. E que por vezes a verdade

é a mais verdadeira das mentiras possíveis.

“Que achas de mim?” é uma pergunta

que devo fazer mais vezes a mim do que aos outros.

E saber quantos milhões de estrelas tem uma galáxia

é menos importante que encontrar as poucas palavras para

terminar uma conversa. Sei que muito do que é humano

ajudou a construir o homem, e que em relação ao tempo

a única vitória é também a única derrota: gastá-lo.

Ah!, e sei que que é bom acordar duas vezes no mesmo dia.

E que a lógica das cores não é a lógica das imagens. E nem

as cores nem as imagens sabem que existe qualquer lógica.

Aprendi também que, se precisar de um cretino

o devo tratar por Dr. Cretino, e que quando

se perde uma pessoa que se ama custa tanto lembrá-la

como esquecê-la. Sei que a justiça me dispensa a coragem,

que posso tornar-me sábio pela sabedoria dos outros

mas se não possuir os meus próprios méritos

de nada vale exibir os méritos do meu pai. E também sei

que com excepção dos progressistas todos me falam

de progresso. E que quando o céu está nublado

a primeira impressão é de que as estrelas

não existem.

Aprendi que não adianta ser rápido antes do tempo

nem depois da oportunidade. E que o vento que derruba

as grandes árvores não consegue mais que inclinar

os pequenos arbustos. Hoje não considero generosidade

oferecer o que me pedem, porque generoso é aquele que dá

antes de lhe pedirem. Acredito que existe uma só sede

e muitas maneiras de a extinguir, e que se por erro cair num

precipício, poucas possibilidades tenho de me

arrepender. Ensinou-me a vida que se me humilhar

não posso esperar dos outros mais que humilhação. E que

poderei retirar ouro de uma rocha mas não posso exigir

que ela me dê água. Tenho percebido que o silêncio é de ouro

num mercado de palavras baratas. E que os olhos ricos

em lágrimas são pobres em sono. Que é mais difícil

reconhecer a qualidade que defini-la, e que para ser elogiado

basta que dê um pouco de mim ou até menos

do que um pouco. Sei ainda que, para o pássaro,

o céu e a árvore têm as mesmas raízes,

que o tempo que amadurece os frutos

amadurece também os homens e, por isso,

aquilo que perdi continua a ser meu

enquanto o procurar.

- Joaquim Pessoa, em “Vou-me Embora de Mim” (Litexa, 2.ª Ed., 2002)