Cândido Portinari pintando “Guerra e Paz”

Painéis criados entre 1952 e 1956 e doados pelo governo do Brasil à ONU em 1957.

Poemas de Paz

A Paz é um Verbo

Costumava pensar que a paz era um lugar,

um destino final ao qual chegávamos depois das

guerras. Mas aprendi que a paz não é uma linha que se cruza,

é uma escolha que se faz.

Repetidamente.

Especialmente quando é mais difícil.

Especialmente quando parece distante.

A paz não é o silêncio forçado nas bocas das pessoas.

Não é a ausência de guerra,

é a presença de compreensão.

É a criança que volta a adormecer

sem estremecer com o vento,

a mãe que já não precisa escolher

entre o pão e a dignidade,

o pai que já não precisa engolir a voz

para se sentir homem.

-Maryam Bukar Hassan

Ode à paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,

Pelas aves que voam no olhar de uma criança,

Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,

Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,

Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,

Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,

Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,

Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,

Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,

Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,

Pelos aromas maduros de suaves outonos,

Pela futura manhã dos grandes transparentes,

Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,

Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas

Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,

Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,

Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,

Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!

- Natália Correia, em "Inéditos (1985/1990)".

A paz sem vencedor e sem vencidos

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Que o tempo que nos deste seja um novo

Recomeço de esperança e de justiça

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência

Para podermos ler melhor a vida

Para entendermos vosso mandamento

Para que venha a nós o vosso reino

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos

Dai-nos a paz que nasce da verdade

Dai-nos a paz que nasce da justiça

Dai-nos a paz chamada liberdade

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

- Sophia de Mello Breyner Andresen, em "Dual".

Peço a paz

Peço a paz

e o silêncio

A paz dos frutos

e a música

de suas sementes

abertas ao vento

Peço a paz

e meus pulsos traçam na chuva

um rosto e um pão

Peço a paz

silenciosamente

a paz a madrugada em cada ovo aberto

aos passos leves da morte

A paz peço

a paz apenas

o repouso da luta no barro das mãos

uma língua sensível ao sabor do vinho

a paz clara

a paz quotidiana

dos actos que nos cobrem

de lama e sol

Peço a paz e o

silêncio

- Casimiro de Brito, em "Jardins de guerra".

Qualquer coisa de paz

Qualquer coisa de paz. Talvez somente

a maneira de a luz a concentrar

no volume, que a deixa, inteira, assente

na gravidade interior de estar.

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente,

uma ausência de si, quase lunar,

que iluminasse o peso. E a corrente

de estar por dentro do peso a gravitar.

Ou planalto de vento. Milenária

semeadura de meditação

expondo à intempérie a sua área

de esquecimento. Aonde a solidão,

a pesar sobre si, quase que arruína

a luz da fronte onde a atenção domina.

- Fernando Echevarría, em "Figuras".