Aforismos em Grande Sertão: veredas

"Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade..." (pág.1)

"O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães... O sertão está em toda a parte." (pág.1)

"Tudo é e não é..." (pág.5)

"O senhor não duvide – tem gente, neste aborrecido mundo, que matam só para ver alguém fazer careta... vem o pão, vem a mão, vem o cão." (pág.5)

"Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo o mundo... Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma idéia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!." (pág.8)

"Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... Tanta gente – dá susto de saber – nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza..." (pág.8)

"...universinho nosso aqui. Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!" (pág.11)

"Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou." (pág.15)

"Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso..." (pág.17)

"Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios, para sortimento de conferir o que existe? Tem seus motivos. Agora – digo por mim – o senhor vem, veio tarde. Tempos foram, os costumes demudaram. Quase que, de legítimo leal, pouco sobra, nem não sobra mais nada." (pág.17)

"Os lugares sempre estão aí em si, para confirmar." (pág.19)

"Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa, ainda encontra. Vaqueiros..." (pág.22)

Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. ... Viver nem não é muito perigoso?" (pág.26)

"Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor. Coração da gente – o escuro, escuros." (pág.26)

"Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?" (pág.29)

"... – o senhor vá ver. Hoje, mudou de nome, mudaram. Todos os nomes eles vão alterando. ...Nome de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado...." (pág.32)

"Olhe: Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato..." (pág.44)

"A colheita é comum, mas o capinar é sozinho." (pág.46)

"... Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver - ..." (pág.48

)

"O sertão é do tamanho do mundo." (pág.60)

"Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto." (pág.69)

"O que vale, são outras coisas. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam..." (pág.82)

“Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe." (pág.82)

"...digo. Esta vida está cheia de ocultos caminhos. Se o senhor souber, sabe; não sabendo, não me entenderá." (pág.132)

"Amigo era o braço, e o aço! Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por que é que é." (pág.155)

"Vou longe. Se o senhor já viu disso, sabe: se não sabe, como vai saber? São coisas que não cabem em fazer idéia." (pág.183)

"A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado..." (pág.192)

"Conto ao senhor é o que eu sei e o senhor não sabe; mas principal quero contar é o que eu não sei se sei, e que pode ser que o senhor saiba." (pág.199)

Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesmo nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é." (pág.207)

"Do vento. Do vento que vinha, rodopiado, Redemoinho: senhor sabe – a briga de ventos. Quando um esbarra com outro, e se enrolam, o doido do espetáculo." (pág.213)

A fantasia, minha agora, nesta conversa – o senhor me atalhe. Se não, o senhor me diga: preto é preto? branco é branco? Ou: quando é que a velhice começa, surgindo de dentro da mocidade." (pág.214)

– “Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima – me disseram. Mas, de repente, chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada...” (pág.226)

“– O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei...

– Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo...

– O senhor não é do sertão. Não é da terra...” (pág.227)

"Sertão sempre. Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera: digo." (pág.249)

"Tem trechos em que a vida amolece a gente, tanto, que até um referver de mau desejo, no meio da quebreira, serve como benefício." (pág.251)

"'Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago...' - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia." (pág.251)

"Quando a gente dorme, vira de tudo: vira pedras, vira flor. O que sinto, e esforço em dizer ao senhor, repondo minhas lembranças, não consigo; por tanto é que refiro tudo nestas fantasias. Mas eu estava dormindo era para reconfirmar minha sorte." (pág.251)

"O senhor vê, nos Gerais longe: nuns lugares, encostando o ouvido no chão, se escuta barulho de fortes águas, que vão rolando debaixo da terra. O senhor dorme em sobre um rio?" (pág.255)

"... Sertão é o sozinho... Sertão: é dentro da Gente." (pág.270)

"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende." (pág.271)

"Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor." (pág.272)

"Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num compito." (pág.273)

"O sertão tem medo de tudo. Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem – que Ele é bondade adiante, quero dizer. O senhor escute o buritizal. E meu coração vem comigo." (pág.273)

"Esses Gerais em serras planas, beleza por ser tudo tão grande, repondo a gente pequenino." (pág.276)

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem." (pág.278)

"O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatilho?" (pág.300)

"O Sertão é sem lugar." (pág.310)

"Catrumanos do sertão. Do fundo do sertão. O sertão: o senhor sabe..." (pág.343)

"Sertão, - se diz -, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem." (pág.355)

"O senhor entende, o que conto assim é resumo; pois, no estado de viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia: um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação." (pág.361)

“Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas" (pág.363)

"O rio não quer ir a nenhuma parte, ele quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo." (pág.382)

“O sertão é bom. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado...” – ele seo Ornelas dizia. – “O sertão é confusão em grande demasiado sossego...” (pág.400)

“Oxalá, o senhor via, o senhor venha... O sertão carece ... Isto consoante que quiser, a esta casa Deus o traga...” (pág.401)

"Pouco se vive, e muito se vê... – Um outro pode ser a gente; mas a gente não pode ser um outro, nem convém..." (pág.405)

"Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só - a inteira - cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber?" (pág.427)

"[...] minha intenção de saudade vinha voltando. Tudo, nesta vida, é muito cantável." (pág.430)

"E tive vontade de traçar uns versos também: mas que a aragem não ajudava a deduzir. Era uma sinceridade muito dificultosa. Escrevi metade.

Isto é: como é que podia saber que era metade, se eu não tinha ainda ela toda pronta, para medir? Ah, viu?! Pois isto eu digo por riso, por graça; mas também para lhe indicar importante fato: que a carta, aquela, eu somente terminei de escrever, e remeti, quase em data dum ano muito depois... Digo o porquê? Próprio porque não pude. Guarde o senhor: não pude completo. Mas, guarde, por outra: o dia vindo depois da noite-esse é o motivo dos passarinhos... " (pág.432)

"...O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão, lá acolá é a caatinga..." (pág.432)

"O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa... Aquilo eu repeli?" (pág.437)

"Travessia – do sertão – a toda travessia... Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias!" (pág.443)

"... Só que o sertão é grande ocultado demais..." (pág.446)

“- Sertão não é malino nem caridoso, mano oh mano!: - ... ele tira ou dá, ou agrada ou amarga, ao senhor, conforme o senhor mesmo.” (pág.460)

"O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente..." (pág.461)

"... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento. E os brabos bichos, do fundo dele..." (pág.479)

"Eu sei: quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade..." (pág.488)

"Sei o grande sertão? Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas..." (pág.508).

"Sertanejos, mire e veja: o sertão é uma espera enorme." (pág.509)

"O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca..." (pág.518)

Tempo que me mediu. Tempo? Se as pessoas esbarrassem, para pensar - tem uma coisa! -: eu vejo é puro tempo vindo de baixo, quieto mole, como a enchente duma água... Tempo é a vida da morte: imperfeição." (pág.520)

“- Tu não acha que todo o mundo é doido? Que um só deixa de doido ser é em horas de sentir a completa coragem ou o amor? Ou em horas em que consegue rezar?” (pág.520)

"O senhor vê aonde é o sertão? Beira dele, meio dele?... Tudo sai mesmo de escuros buracos, tirando o que vem do céu." (pág.527)

Observação: Todas as citações desta página se referem a edição que aqui consta:

ROSA, João Guimarães, "Grande Sertão: Veredas". 36ª impressão, Editora Nova Fronteira, 1988.